criticas

BORORÓ & GALO PRETO
(Museu de Arte Moderna)

Os que não foram no MAM vão continuar vociferando que o choro vive de nomes do passado e que Bororó é apenas o autor de “Da Cor do Pecado” e “Curare”.  Os que compreendem que o processo artístico é dinâmico e não está sujeito a “acidentes” tão proclamados quanto difíceis de defender numa argumentação viram desfilar fértil de composições de um ilustre pequeno burguês carioca na flor e lucidez de seus 81 anos perfeitamente entrosados a um grupo de músicos dos quais muito se pode esperar.

“O PASQUIM” - 1977 (Roberto Moura)

Com o velho contínuo que diariamente bate o ponto no Ministério da Indústria e do Comércio, ele comparece ao seu mais novo local de trabalho antes da hora e de todo mundo.  Sandália, roupa surrada, pernas esticadas numa poltrona, cervejinha gelada do lado, ele nem lembra o príncipe que dias antes desfilou pela avenida, abrindo a passagem da sua Mangueira.  Quando vai chegando nove e meia da noite, pede licença e se manda para o camarim com um andar arrastado de quem não tem pressa.  E, quando começa a atividade desse novo trabalho, transfigura-se.  Fica ágil, conta piadas, mostra com a maior segurança várias músicas gravadas em seus Lps, presta homenagem a Silas de Oliveira – “o maior de todos os compositores de escola de samba” - e deixa a impressão de que, aos 63 anos, está mais em forma do que nunca.

           O pessoal do Galo Preto dá o pontapé inicial, mostra dois chorinhos, só depois é que Cartola entra.  N primeira parte, canta músicas menos conhecidas, entremeadas com piadas e casos do morro.  Com esse espírito, fazendo a platéia ficar muito à vontade, Cartola leva o show “Acontece” como quer, como se fosse um tarimbado homem de palco.

Adeus, Mangueira, a abertura da segunda parte é de profundo bom gosto: o conjunto Galo Preto, de excelente nível, executa duas músicas de Jacó do Bandolim.  Uma valsa, a última composta por Jacó, e um choro inédito.  Em meio a esse clima, Cartola retorna.  Senta-se na cadeira colocada junto à mesa que está no centro do palco e desfila uma série de canções, as suas mais conhecidas, e prossegue contando casos do morro.

           O fim do espetáculo é uma festa.  As pessoas de pé exigindo mais.  Cartola emocionado, bisa.

 Jose Trajano
Cartola e Galo Preto – Isto é 1978


Escola de Chorões

            Se Jacó tem presença simbólica na parte de execução deste LP – a esta comparecem concretamente, entre outros convidados.  Abel Ferreira, Copinha, e Claudionor Cruz.  Esse comparecimento, mais do que mera homenagem ou dispensável apadrinhamento traduz uma perfeita identidade do modo de tocar, evidenciada com largueza no entrosamento em que se igualam ao longo de varias faixas (escute-se, por exemplo, o diálogo de flautas entre o venerável Copinha e o jovem José Maria Braga, na faixa Murmurando) os velhos mestres e seus aplicados seguidores.  Essa aproximação tão bem sucedida é mais do explicável: o Galo Preto praticamente desde a sua formação toca com os velhos chorões.  O próprio nome do grupo é referencia a um ente que Claudionor Cruz (com quem o conjunto já se apresentou em shows, inclusive na série Seis e Meia pioneira, a do Teatro João Caetano) afirma baixar inesperadamente nos ensaios de seu regional.  Alguns dos músicos que agora fazem estréia em disco próprio formam costumeiramente no conjunto de Abel Ferreira, do qual o sete cordas Luiz Otávio Braga tem sido figura de destaque.  E foi ao lado de Bororó (autor de peças chorísticas já clássicas) que o grupo conheceu o seu primeiro êxito em espetáculos em palcos teatrais, sucesso que repetiu em plano muito mais alto ao acompanhar Cartola em recente show no Teatro da Galeria.

            Com tal currículo aprimorando o seu talento natural, foi possível ao Galo Preto fazer um disco maduro logo na primeira tentativa.  No LP, o desempenho dos músicos está perfeitamente à altura do repertório de exceção escolhido, no qual se inclui uma maravilhosa peça inédita de Anacleto de Medeiros.

Moacyr Andrade
Jornal do Brasil 02/06/1978

 

Veja o que diz o crítico Luiz Carlos de Assis, sobre o disco, para a Revista Amiga:  “Entre os grupos de choro não tenham dúvidas de que o LP do Galo Preto sempre merece ser escutado, guardado e analisado com bastante carinho.  Eles sabem traduzir com eficácia as tendências do gênero através da sua evolução.  Um exemplo: a faixa 1 do lado A, onde Paulinho da Viola assina com Cristóvão Bastos a maravilha do Meu Tempo de Garoto, mostrando uma concepção mais moderna do gênero.

Luiz Carlos de Assis
Revista Amiga

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